No passado, a sinestesia era vista como uma aberração neurológica. Hoje, é inspiração para designers
No século 19, o cientista Francis Galton, primo de Charles Darwin, fez uma descoberta curiosa: um número ínfimo da população (no seu cálculo, uma em cada 200 mil pessoas), ao se deparar com um número, o via colorido. O “5” era percebido por algumas na cor azul-escuro. Já outra pessoa enxergava o “2” em amarelo. Não era uma condição lá muito poética ou agradável para os pacientes. Pois ela beirava a alucinação e causava sofrimento. Ele chamou esta síndrome de “sinestesia”, a mistura dos sentidos.
Atualmente, graças à neurociência, a sinestesia deixou de ser um bicho de sete cabeças. Despida do velho rótulo de disfunção cerebral, a sinestesia começa a ser usada por empresas de design e institutos de tecnologia para o desenvolvimento de produtos inovadores, que rompem as barreiras convencionais dos sentidos. Imagine uma análise “sonora” de sangue nos laboratórios. Um método de degustação de chocolates por imagens. Ou a alfabetização por odores agradáveis. A imaginação é o limite.
“O design sinestésico baseia-se no melhor alinhamento possível entre os aspectos do design e a percepção multissensorial dos objetos pelas pessoas”, diz Michael Haverkamp, da Universidade de Colônia, na Alemanha. Haverkamp investiga as percepções corpóreas do som. Seu trabalho, como o de outros pesquisadores da área, ajudou designers a desenvolverem interfaces gráficas de tocadores de música de computador, como o Windows Media Player. Na verdade, trata-se daquelas que aparecem na tela do computador enquanto a música toca – um dispositivo que muita gente evita, reclamando de dores de cabeça depois de algum tempo de uso.

No entanto, há uma outra aplicação musical sinestésica que promete se tornar uma revolução – e que não tem nada a ver com entretenimento. Trata-se dos princípios da sinestesia associados às análises clínicas de laboratório. A Universidade de Minnesota está desenvolvendo um método de análise “sonora” de sangue. Atualmente, nos exames convencionais, o sangue coletado é escaneado visualmente. Cada componente corresponde a uma cor. Porém, os tons muitas vezes se sobrepõem e se confundem, o que dificulta o diagnóstico. A universidade americana criou um software que relaciona sons aos componentes químicos, com alturas e timbres diferentes. Ao todo, o laboratório criou uma “orquestra” de 57 sons para a análise clínica. “Hoje, eu consigo ouvir as anomalias, onde antes o olho não conseguia perceber diferenças”, diz o doutor Charles Sweeley, chefe do departamento.
Uma outra linha de pesquisa envolve o desenvolvimento de material pedagógico para alfabetização. A americana Frog Design desenvolve um sistema de leitura no qual a criança pode associar odores às letras. O som do “A” pode vir acompanhado do delicado odor da maçã (apple, em inglês), e o “C”, do delicioso aroma de chocolate. A alfabetização pode se tornar muito mais prazerosa (e, cá entre nós, criar um milionário filão de “odor books”). “Nós estaremos perdendo oportunidades preciosas, se não formos capazes de explorar todo o potencial dos sentidos”, diz Laura Richardson, designer e diretora da Frog.
Fonte: Época Negócios